Produção artesanal da erva-mate fortalece a autonomia da comunidade e reafirma o papel dos povos originários na formação cultural do Rio Grande do Sul
A Teko’a Anhetengua (Aldeia da Verdade, Verdadeira), localizada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, viveu em 21 de agosto um momento histórico: a realização de seu primeiro Carijo/Karijo (produção artesanal da erva-mate). A iniciativa, que resgata saberes ancestrais e fortalece a identidade cultural da comunidade Mbyá Guarani, integra o Projeto Ar, Água e Terra, realizado pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM), com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
O primeiro Carijo protagonizado pelos integrantes da aldeia da Lomba do Pinheiro foi um evento de união e aprendizado, no qual todas as etapas foram realizadas de forma tradicional indígena. As fases de colheita e preparação da erva-mate contaram com a participação do cacique Ramon e sua esposa Janaína — ambos da Teko’a Yvyty Porã (Aldeia Serra Bonita), localizada na Barra do Ouro, em Maquiné —, que desceram a Serra para compartilhar seus saberes tradicionais com a comunidade da Teko’a Anhetengua.
Técnica de produção da erva-mate que requer tempo e dedicação, o Carijo inclui a colheita e seleção de ramos, passando pela “sapecagem”, a secagem sob o fogo de chão e a separação das folhas, até a moagem em pilão. Marco importante para a autonomia e sustentabilidade dos Mbyá Guarani da Lomba do Pinheiro, o trabalho se destacou por sua abordagem participativa, contando com a colaboração de equipes indígenas e profissionais não-indígenas, como biólogos e agrônomos.
O evento ocorreu em um dia de sol e céu limpo, o que realçou a simbologia do Carijo, uma vez que, para os Guarani, a Ka’a’i / Ca’a’i (erva-mate) é um “presente” de Tupã, simbolizando a conexão com a Mãe Terra, o fortalecimento da energia, do espírito e do corpo.
Embora o chimarrão seja um elemento tradicional da cultura Guarani muito antes da chegada dos europeus à América do Sul, esta é a primeira vez que a aldeia utiliza sua própria produção. Para os Guarani, esse ritual é o elo com a Mãe Terra, reforçando a união e a energia vital da comunidade, não somente na roda de conversa, mas também com diversos usos tradicionais medicinais e em cerimônias. O costume, considerado sagrado pelos indígenas, foi observado e difundido pelos espanhóis e portugueses nos séculos XVI e XVII, principalmente pelos missionários jesuítas, no Vice-Reino do Rio da Prata, onde ampliaram o cultivo da erva-mate, tornando-se um dos símbolos do Rio Grande do Sul.
Neste 20 de setembro, quando os gaúchos celebram sua identidade, a realização do primeiro Carijo na Teko’a Anhetengua ganha ainda mais significado. O chimarrão, símbolo maior da cultura do Rio Grande do Sul, reencontra suas origens no saber Guarani e reafirma o papel dos povos originários na formação da identidade gaúcha.
