Recentemente, um importante passo para o resgate e a valorização da cultura Guarani foi dado com o desenvolvimento de uma cartilha de plantio tradicional, focada na agricultura ancestral conhecida como kokué (roça). O material, construído pelo Projeto Ar, Água e Terra em parceria com a comunidade, é mais do que um guia técnico, servindo como uma ferramenta para registrar e disseminar um conhecimento complexo que corre o risco de se perder entre as novas gerações.
Realizado pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM) em dez municípios gaúchos, o Projeto conta com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Intitulada Ma’etỹ Regua – Calendário de plantio em Kokué e agroflorestas Grauani, a cartilha está intrinsecamente ligada à cosmologia Guarani, apresentando um diagrama circular que associa o ciclo agrícola a elementos fundamentais como o sol, a lua e rituais sagrados, a exemplo do batismo com sementes de milho (Nhemongarai). O material introduz conceitos temporais próprios da cultura, como o “tempo novo” e o “tempo antigo”, que não se espelham na contagem de meses do calendário não indígena.
Este esforço de resgate cultural é crucial para as aldeias, destaca o biólogo Rafael Martins Paniz (que desenvolve, por meio do Projeto Ar, Água e Terra, um trabalho junto aos Guarani, com foco na implementação e manejo de sistemas agroflorestais). Segundo ele, o calendário se torna, além de um “guia prático” de plantio para os indígenas, também uma forma de valorizar a sabedoria dos mais velhos – cujo conhecimento agrícola tem se distanciado da juventude Guarani, especialmente em aldeias em contexto de limite urbano. “Ao colocar no papel um conhecimento tradicionalmente oral, o material ajuda a reforçar a própria cultura e a autonomia dos povos indígenas em relação ao seu território”, observa Paniz. “A kokué é diferente da roça tradicional não indígena”, emenda.
Para além das aldeias, a cartilha também serve como um apoio fundamental ao trabalho do biólogo com a agrofloresta nas aldeias. Ele destaca que, junto com os agentes indígenas do Projeto, utiliza as espécies indicadas no material de forma alinhada às necessidades e à cultura Guarani, garantindo que a intervenção contribua efetivamente para a segurança alimentar e a resiliência das comunidades. “A agricultura Guarani, por natureza, já possui uma lógica florestal, e o diagrama da cartilha auxilia o trabalho de restauração e produção”, sinaliza Paniz.
Ainda de acordo com o biólogo, para além de ser distribuído nas 11 aldeias que integram o Projeto Ar, Água e Terra, o material tem potencial de disseminação em espaços como universidades, transcendendo a função de guia de plantio, e transformando-se em uma base de conhecimento da rica cultura Guarani para o público não indígena. “Ao comunicar a complexa relação do povo com o tempo, o espaço e o plantio, o material cumpre um serviço social ao levar essa sabedoria para além dos limites da Terra Indígena”, pontua.