O que é uma teko’a? A aldeia Guarani explicada para quem nunca ouviu falar

Chamar uma teko’a de “aldeia Guarani” ajuda na tradução. Mas não explica o que ela realmente é. A palavra pode parecer simples à primeira vista, mas reúne ideias que costumam aparecer separadas: território, comunidade, cultura e a forma de viver.

É na teko’a que acontece o nhandereko, o modo de vida Guarani: o cultivo da terra, a espiritualidade e a transmissão de conhecimentos entre gerações.

Os sentidos da palavra

Teko’a nomeia o espaço onde o nhandereko pode existir plenamente, mantendo vivas a cultura, a organização da comunidade e sua relação com o território.

O cacique José Cirilo, da Teko’a Anhetenguá, em Porto Alegre, ajuda a traduzir esse significado ao destacar que é na aldeia, junto da família, que se aprendem a língua, os costumes e o modo de viver Guarani.

Quando a terra não é uma posse

A relação Guarani com o território ultrapassa a ideia de propriedade. É nele que se articulam moradia, alimentação, espiritualidade, cultura e a transmissão de conhecimentos entre gerações.

Numa teko’a, a terra não pertence às pessoas. São as pessoas que pertencem à terra. Dessa inversão nasce uma responsabilidade permanente: cuidar, preservar e garantir que ela continue sustentando a vida. Essa forma de compreender o território ajuda a explicar por que as áreas indígenas Guarani estão entre as mais preservadas do Rio Grande do Sul.

Enquanto grande parte da sociedade pergunta o que a terra pode produzir, o cotidiano Guarani parte de outra pergunta: o que ela precisa para continuar viva?

O dia a dia

A cultura Guarani não se mantém viva apenas na memória. Ela se mantém no cotidiano.

Uma teko’a reúne casas, as kokué, as roças tradicionais, e a opy, a casa de reza, centro espiritual da comunidade, onde boa parte das decisões é tomada coletivamente.

O cotidiano das crianças também é recheado de tradição: elas escutam a língua Guarani, aprendem a reconhecer plantas medicinais e observam os ciclos do sol e da lua que orientam o plantio.

Milho, mandioca, feijão, amendoim, erva-mate e frutíferas nativas estão entre as espécies cultivadas nas roças e nos sistemas agroflorestais.

É nessa rotina que o nhandereko continua vivo. Na teko’a, território e modo de vida são inseparáveis.

Cultura e preservação caminham juntas

Nos dez territórios indígenas Guarani que integram o Projeto Ar, Água e Terra, no Rio Grande do Sul, 3.281 dos 3.409 hectares permanecem conservados, o equivalente a mais de 96% da área total das dez aldeias. O resultado está diretamente ligado ao cuidado cotidiano de comunidades que vivem no território e dependem dele para existir.

A mata continua preservada. As nascentes seguem protegidas. A biodiversidade da Mata Atlântica e do Pampa encontra condições para resistir.

“Hoje, depois que a mata cresceu, os animais estão voltando […] temos erva-mate, frutas nativas, remédios. Assim, as pessoas ficam com mais saúde porque o espírito fica mais feliz”, afirma o cacique José Cirilo Pires Morinico, da Teko’a Anhetenguá, em Porto Alegre.

Ao longo de gerações, o conhecimento sobre quais espécies plantar, quando colher e como manejar o solo tornou-se uma forma de proteção ambiental que políticas públicas isoladas dificilmente conseguem substituir.

Proteger uma teko’a, portanto, significa preservar muito mais do que um território indígena. Significa manter vivo um patrimônio cultural que também protege a floresta.

Ar, Água e Terra

É a partir dessa compreensão que o Projeto Ar, Água e Terra, desenvolvido pelo IECAM em parceria com dez aldeias Guarani no Rio Grande do Sul e patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, organiza suas ações.

O projeto não leva soluções prontas para as aldeias. A metodologia é construída de forma participativa, com protagonismo das comunidades na definição de demandas e prioridades.

A recuperação de áreas degradadas, a produção de mudas nos viveiros, os sistemas agroflorestais e o etnomapeamento territorial partem do conhecimento de quem vive nesses territórios há gerações.

O resultado são comunidades com maior autonomia alimentar, territórios mais resilientes e uma floresta que volta a pulsar.

Compreender o significado de uma teko’a ajuda também a entender por que proteger os territórios Guarani está diretamente ligado à conservação da Mata Atlântica e do Pampa, dois dos biomas mais ameaçados do Brasil.

Para os Guarani, natureza e pessoas nunca foram coisas separadas.

Acompanhe a série

Este é o primeiro texto de uma série que apresenta, em linguagem acessível, os conceitos e as ações desenvolvidas pelo Projeto Ar, Água e Terra.

Nos próximos artigos, vamos explorar o etnomapeamento, o viveirismo, a língua Guarani e as práticas de reconversão produtiva nas aldeias.

Acompanhe as próximas publicações pelo blog e pelas redes sociais do projeto.

Projeto Ar, Água e Terra: uma realização do IECAM com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

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