Experiências de restauração ecológica em aldeias Guarani no RS ganham destaque em webinário nacional

Encontro promovido pela Rede Sul de Restauração Ecológica debateu restauração ambiental, gestão territorial e fortalecimento dos modos de vida indígenas

A recuperação de áreas degradadas, a retomada de sementes tradicionais, o fortalecimento da segurança alimentar e a preservação dos modos de vida dos povos originários estiveram no centro do Primeiro Webinário da Rede Sul de Restauração Ecológica: Restauração com aldeias Guarani no Rio Grande do Sul (RS), realizado nesta quinta-feira (28). Representando o Projeto Ar, Água e Terra, a coordenadora da iniciativa e presidente do Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM), Denise Wolf, e as lideranças indígenas Eloir Oliveira, da Teko’a Nhe’engatu, e Valdecir Xunu Moreira, da Teko’a Pindó Mirim, ambas em Viamão, compartilharam experiências de restauração ecológica desenvolvidas em aldeias no estado.

Integrando o Ciclo de Debates de 2026, o encontro reuniu representantes de organizações, pesquisadores e lideranças indígenas para discutir os desafios e as oportunidades da restauração ecológica em territórios Guarani. Entre os temas abordados estiveram o manejo agroflorestal, a gestão territorial, a conservação da biodiversidade e a importância dos saberes indígenas para a proteção dos biomas Pampa e Mata Atlântica.

Durante sua participação, Denise Wolf contextualizou a trajetória do Projeto Ar, Água e Terra, desenvolvido entre 2010 e 2026 em parceria com dez aldeias Guarani no Estado, e do projeto de RFO “Uma Aliança entre a Conservação da Biodiversidade e o Nhandereko Guarani”, executado entre 2022 e 2024. A coordenadora destacou que as iniciativas atuam em eixos como restauração produtiva, gestão territorial, viveirismo e intercâmbio de sementes, além de reforçar a importância de projetos de longo prazo para garantir acompanhamento, monitoramento e consolidação dos resultados em restauração.

As lideranças indígenas presentes no encontro reforçaram que a restauração ecológica vai além da recuperação da vegetação. Para os Guarani, ela está diretamente relacionada à retomada de práticas culturais, ao fortalecimento da espiritualidade, à segurança alimentar e à transmissão de conhecimentos entre gerações.

Cacique da Teko’a Nhe’engatu, Eloir Oliveira destacou que os projetos desenvolvidos em parceria com organizações da sociedade civil têm contribuído para recuperar áreas degradadas e fortalecer territórios historicamente impactados por diferentes processos de ocupação. “Esse projeto vem ao encontro do sonho do povo Guarani. O sonho de ter uma mata, o sonho de ter um rio, uma água pura, uma nascente pura, de preservar os animais, as ervas medicinais e as árvores frutíferas”, afirmou Eloir. Segundo ele, os benefícios alcançados ultrapassam os limites das aldeias e contribuem para toda a sociedade. “Um pouquinho que esses projetos conseguem fazer é para a humanidade. Não é só para a aldeia Guarani. É para qualquer ser que existe nesse planeta”, acrescentou.

Valdecir Xunu Moreira, da Teko’a Pindó Mirim, compartilhou uma experiência atravessada pela memória de seus antepassados. Na aldeia, o processo de recuperação ambiental iniciado por seus ancestrais segue produzindo resultados percebidos pelas novas gerações, que já colhem seus frutos. Ao recordar o trabalho realizado por anciãos da comunidade, Valdecir ressaltou a importância de garantir continuidade às ações desenvolvidas nos territórios. “Hoje é o nosso tempo e o tempo das crianças está no futuro. A gente tenta construir e deixar o nosso legado para que elas possam continuar esse trabalho, sem precisar começar tudo de novo”, declarou.

Ao longo do debate, os participantes também destacaram a necessidade de ampliar o alcance das ações de restauração ecológica para um número maior de aldeias Guarani no RS, bem como fortalecer políticas públicas voltadas à gestão territorial indígena e à conservação ambiental. O encontro reforçou que restaurar territórios Guarani também significa fortalecer culturas, proteger biomas e garantir condições para que os saberes ancestrais sigam atravessando gerações.

O Webinário 1 da Rede Sul de Restauração Ecológica permanece disponível no canal da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE) no YouTube.

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