Viveirismo atua como célula-mãe da reconversão produtiva nas Tekoá, promovendo resiliência climática e autonomia indígena no Rio Grande do Sul
No complexo desenho da restauração ecológica e da reconversão produtiva, o viveiro de mudas surge como muito mais do que um espaço de produção; ele é a “célula-mãe” onde o futuro da floresta e a autonomia indígena ganham fôlego. Dentro das ações do Projeto Ar, Água e Terra – iniciativa do Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM) com o patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental, esse espaço funciona como o braço operacional que permite planejar o território de forma estratégica. Como explica o biólogo Rafael Martins Paniz, técnico do projeto, o viveiro propicia a escolha precisa das espécies para que o plantio nas agroflorestas seja, de fato, efetivo. Essa escolha não nasce de manuais isolados, mas de uma escuta profunda, em que o conhecimento técnico se encontra com a necessidade dos Guarani para dar suporte a uma pluralidade de possibilidades, transformando o viveirismo em uma ferramenta de preservação da Mata Atlântica e do Pampa.
Na prática, o funcionamento do viveiro é um ciclo que começa com a coleta de sementes nas matas locais, respeitando a sazonalidade e a genética da região. O trabalho técnico envolve a quebra de dormência de sementes e o acompanhamento de espécies fundamentais como o Cedro (Igary), a Cabreúva, o Angico e a palmeira Juçara, além de plantas que fornecem a taquara para o artesanato e espécies medicinais para rituais de cura. Ao unir a técnica de germinação ao saber ancestral sobre o uso de cada planta, o Projeto garante que a recuperação das áreas degradadas caminhe junto com a segurança alimentar e o fortalecimento das tradições Guarani. Paniz enfatiza que o viveiro é um braço efetivo para que esses sistemas beneficiem diretamente as populações locais, em uma dinâmica onde o conhecimento não é apenas transmitido, mas compartilhado em uma troca constante com os guias e comunidades locais.

Essa estrutura também se revela um pilar de solidariedade entre os Guarani. Um viveiro consolidado, como os das aldeias Lomba do Pinheiro, Estiva e Cantagalo, torna-se referência para outras Tekoá que ainda não possuem estrutura própria, criando uma rede de diversidade genética que fortalece o território frente às mudanças climáticas. Mais do que fornecer mudas, o processo promove uma capacitação que gera autonomia real. Segundo Paniz, o trabalho no viveirismo prepara as comunidades para que elas tenham a liberdade de promover a diversidade que consideram importante, aproveitando o que há de melhor tanto na técnica quanto na tradição.
O resultado desse esforço aparece na paisagem e na vida social como um ciclo de reciprocidade e cuidado. Cada muda produzida é um projeto de cultura viva em miniatura, assegurando que as futuras gerações tenham acesso aos alimentos, à matéria-prima para seus instrumentos e às práticas de cura. Ao consolidar essa cadeia de suprimento, o Projeto permite que as aldeias conduzam o próprio futuro com dignidade. Como destaca Paniz, o viveiro é o suporte para todo esse contexto de fortalecimento, garantindo que o conhecimento e a necessidade dos Guarani caminhem lado a lado na construção de um território resiliente e de uma floresta que volta a pulsar